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Grupo de Ideal Espírita André Luiz

AÇÃO IMPERCEPTÍVEL DOS OBSESSORES SOBRE OS CASAIS
Estamos com disposição, no presente artigo, de escrever sobre um dos diversos casos clínicos relacionados à vida em família, nos quais a obsessão sutil ou ostensiva se faz presente, não apenas os nossos, registrados em mais de trinta anos de labor contínuo em hospital psiquiátrico espírita, ambulatório e consultório particular, mas – e a preferência recai sobre estes – os publicados em obras de cunho espiritual e psicológica, todos narrados em linguagem simples, desataviada, como convém à boa compreensão dos temas a serem estudados.

Iniciemos com o livro do Pe. Alípio J. Pedrini, SCJ, Oração de Amorização: A Cura do Coração (Edições Loyola, São Paulo, 72a. Edição, 1994, Cap. 2 – "Testemunhos e Fatos” – p. 9) : “Meu problema é grave. Sou casada pela segunda vez. Fiquei viúva, bem jovem, com um filho de seis anos. Dois anos após, apareceu uma nova oportunidade de casamento. Era um homem da minha idade, trabalhador, honesto e livre. Casamos. No começo ia tudo muito bem. Com o correr do tempo, comecei a me sentir mal com ele e o nosso relacionamento tornou-se ruim. Atualmente não o suporto. Ele me irrita até com sua presença. O pior é que ele gosta muito do meu filho, e meu filho, dele. Aliás, meu marido gosta muito também de mim. Faz tudo para me agradar. Mas eu estou nesta triste situação. Não gosto dele. Sinto-me mal perto dele. Nossa vida íntima é horrível para mim. Que faço? Como resolvo meu problema?”

O leitor interessado poderá, naturalmente, cientificar-se das judiciosas considerações do Autor, que recomenda oração à consulente, compulsando a referida obra, que tem um total de apenas 70 páginas.

Entretanto, aqui, limitar-nos-emos a enfocar o assunto sob o ponto de vista espírita, por itens:

1.– Ao afirmar que seu problema é grave e que é casada pela segunda vez, e agora com dificuldade de relacionamento interpessoal, a paciente deixa claro que alberga ódio dentro de si, inconscientemente, direcionado a seus pais e a quantos lhe influenciaram na criação, nos períodos cruciais da vida – de oito meses a oito anos e dos doze aos dezessete –, denotando imaturidade emocional e espiritual, tudo decorrente do que foi vivenciado por ela, em vidas pregressas, em circunstâncias e locais os mais diversos.

A Lei de Causa e Efeito explica os motivos pelos quais nasceu no meio de família onde o Amor e a Caridade não foram a tônica, reinando a hipocrisia, e porque fez a segunda escolha neurótica no casamento, procurando autopunir-se por não conseguir amar, pelo menos superficialmente, aquele que aceitou para ser seu companheiro pela vida fora, tendo tomado a decisão, sem qualquer interferência em seu livre arbítrio, sem coerção de quem quer que seja.

2. – O fato de ficar viúva ainda jovem, com um filho de seis anos de idade, mostra-nos que em vidas anteriores não deu o devido valor ao casamento, exercendo a maternidade, provavelmente em muitas delas, de forma pouco responsável no que se refere à assistência moral e material à prole.

Tendo pedido, antes da atual existência, ainda no Plano Espiritual, aos prepostos de Jesus para que viesse enfrentar, com galhardia, o problema com que ora se defronta, que não comporta gravidade alguma, sente-se insegura por lhe faltar a verdadeira fé que remove montanhas, a confiança em Deus.

3. – Casando-se dois anos depois de se enviuvar, com um homem de sua mesma idade, trabalhador, honesto e livre, dá ela provas de que agiu de forma adulta e de que o socorro espiritual veio em seu favor. Poderia ter-se casado com um homem trabalhador e honesto, mas com ligações afetivas mal resolvidas. Neste caso, estaria se comprometendo perante as leis naturais, que são as Leis do Supremo Pai, principalmente se o homem estivesse ainda casado, mas separado da esposa e dos filhos. No caso de nossa irmã, o homem é livre, isto é, desimpedido.

4. – No começo, ia tudo bem. Ocorrência comum nos casamentos de modo geral. Pela falta de vivenciar o “orai e vigiai”, as trevas foram, a pouco e pouco, se insinuando, exatamente por oferecer ela a condição ideal de que necessitam os Espíritos perturbadores – o cultivo do ódio dentro de si, mascarado de amor. Com o correr do tempo, começou a sentir-se mal perto dele, não o suportando, irritando-se com a sua presença.

Em muitos casos clínicos nossos, semelhantes a este, Espíritos que foram vilipendiados pelas suas respectivas esposas, quando as descobrem em novos corpos, com nomes diferentes, atormentam-nas, em todos os instantes, insuflando-lhes antipatia – e em muitas delas – nojo dos seus companheiros de luta, levando-as a tomar a iniciativa da separação, ferindo, mortalmente, os esposos, os quais, por sua vez, que não deram valor às suas consortes, em épocas recuadas ou recentes, sofrem a pena de Talião. Nesses casos, somente a oração e a valorização da religiosidade que cada um carrega consigo, poderão amenizar a por vezes dramática situação.

Em nossa experiência com casais católicos, a frequência simultânea aos seus cultos religiosos (não nos esqueçamos de que os rituais se constituem em elementos de drenagem da agressividade) e ao Centro Espírita, bem orientado, ouvindo as palestras evangélicas, recebendo passes, beneficiando-se com as águas fluidificadas e participando das tarefas de assistência social em ambos os setores, esforçando-se no sentido da reforma íntima, os resultados são excelentes. Antes, porém, será preciso que o casal e os filhos se cientifiquem de que o ódio e não o Amor e a Caridade é que está cimentando a penosa união conjugal, devendo fazer o Culto Evangélico no Lar, pelo menos uma vez por semana, buscando incentivar o hábito da leitura sadia, mormente das obras de Allan Kardec, das de Emmanuel (da série que vai de Caminho, Verdade e Vida a Palavras de Vida Eterna) e das de André Luiz, notadamente Agenda Cristã e Sinal Verde, pelo médium Xavier, sem que haja necessidade de deixarem as suas respectivas religiões para se tornarem espíritas. Que possam assimilar a ciência e a filosofia espíritas, de consequências religiosas, permanecendo, se acharem por bem, em seus redutos de origem, mesmo arrastando dificuldades com um outro pastor menos compreensivo.

5. – A paciente percebe que o marido gosta dela e de seu filho, tudo fazendo para agradá-la. Ao afirmar: “Não gosto dele. Sinto-me mal perto dele”, dá evidências claras de que ela não convive bem, dentro de si, com a sua parte masculina – o animum – e a sua “sombra”, isto é, a sua parte doente, obscura, no dizer de Carl Gustav Jung (1875-1961), que chegou a declarar, mesmo tendo demonstrado, no seu livro Psicologia e Religião Oriental, ser contra o Espiritismo, ele que foi um médium admirável, como se depreende de suas Memórias, Sonhos, Reflexões e de outras obras: “A religião sadia reúne o consciente e o inconsciente.”

Consultemos, leitor amigo, as questões 459 a 472 de O Livro dos Espíritos, nas quais Allan Kardec estuda a influência dos Espíritos sobre os nossos pensamentos e sobre as nossas ações, e passemos às nossas considerações de ordem prática:

1) Havendo dificuldade de relacionamento, no lar, no ambiente de trabalho e nos locais de lazer, lembremo-nos de que temos ódio dentro de nós a ser erradicado e substituído pelo Amor que deriva do exercício da caridade, não somente material, mas, sobretudo, moral.

2) Evitemos projetar os nossos defeitos nos outros, mas, ao contrário, tomar consciência deles, atentos ao que se encontra nos itens 9 e 10 do Cap. X de O Evangelho Segundo o Espiritismo, sínteses admiráveis do Cristo e do Codificador do Espiritismo, sobre o argueiro e a trave no olho, abençoando todas as criaturas como efetivamente são, tudo fazendo para benefício delas, já que nos propiciaram os meios de nós mesmos fazermos o nosso próprio diagnóstico de nossas imperfeições.

3) Oremos pela nossa pacificação interna, pelos genitores e outras figuras de relevo em nossa infância e adolescência, pelos nossos perseguidores invisíveis, nomeados por obsessores, os quais, na realidade, se nos perseguem, hoje, é que os lançamos na condição de nossas vítimas, ao invés de verdugos, no grande passado.

4) Procuremos, com efeito, orar por todos os que nos despertam antipatia, aparentemente gratuita, e façamos o bem quanto nos seja possível, perdoando setenta vezes sete vezes a quantos nos tenham ofendido, nesta e em outras existências, sempre trazendo em mente que o casamento “é um progresso na marcha da Humanidade”, segundo a questão 695 de O Livro dos Espíritos, e de que assiste razão a La Rochefoucauld (1613-1680), confirmando que vivemos, por enquanto, num mundo de provas e expiações, quando explica, nas suas Reflexões: “Há bons casamentos, porém não os há deliciosos.” (II y a de bons mariages, mais il n’y en a point de délicieux.)

5) Pondo em prática o SOS – Silêncio, Oração e Serviço –, recomendado pelo Espírito de André Luiz, no livro Sol nas Almas (Uberaba, CEC), recebido pelo médium Waldo Vieira, que a nossa irmã e quantas estejam enfrentando a sua aparente dificuldade, possam, com paciência e resignação dinâmicas, meditar sobre o que diz Emmanuel (Francisco Cândido Xavier, Pão Nosso, Rio, FEB, Cap. 117 – “Em Família” – ), analisando este breve trecho de Paulo, que se encontra em II Timóteo, 5:4 – “Aprendam primeiro a exercer piedade para com a sua própria família e a recompensar seus pais, porque isto é bom e agradável diante de Deus.” – : “A luta em família é problema fundamental da redenção do homem na Terra. Como seremos benfeitores de cem ou mil pessoas, se ainda não aprendemos a servir cinco ou dez criaturas? Esta é a indagação que se estende a todos os discípulos sinceros do Cristianismo.” E conclui: “Conhecemos numerosos irmãos que se sentem sozinhos, espiritualmente, entre os que se lhes agregaram ao círculo pessoal, através dos laços consanguíneos, entregando-se, por isso, a lamentável desânimo.

É imprescindível, contudo, examinar a transitoriedade das ligações corpóreas, ponderando que não existem uniões casuais no lar terreno. Preponderam aí, por enquanto, as provas salvadoras ou regenerativas. Ninguém despreze, portanto, esse campo sagrado de serviço por mais se sinta acabrunhado na incompreensão. Constituiria falta grave esquecer-lhe as infinitas possibilidades de trabalho iluminativo.

É impossível auxiliar o mundo, quando ainda não conseguimos ser úteis nem mesmo a uma casa pequena – aquela em que a Vontade do Pai nos situou, a título precário.

Antes da grande projeção pessoal na obra coletiva, aprenda o discípulo a cooperar, em favor dos familiares, no dia de hoje, convicto de que semelhante esforço representa realização essencial.

Para concluir, vejamos o que o mesmo Benfeitor Espiritual – Emmanuel – tem a nos transmitir, no Cap. 10 – “Amor e Atração” –, de Recados do Além (São Paulo, Ideal, 1978, p. 31), por intermédio do nosso querido médium Chico Xavier, a quem enviamos a nossa modesta saudação e votos de Saúde e Paz:

“Dentro da noite fria, o discípulo inquiriu:

– Instrutor, como entender a atração do amor? Porque se destroem tantas criaturas, em nome do afeto?

O sábio pensou, pensou...

Depois, inclinando a chama da candeia que clareava o recinto, cercado por um grande número de mariposas, dentre as quais muitas delas caíam mortas, esclareceu:

– Muitos se anulam, em nome do amor, por lhe ignorarem os princípios divinos. Observa as mariposas e a chama. Elas são atraídas pela luz e pelo calor, mas porque não se contentam em se aquecerem para seguir no caminho claro que a luz lhes descortina, tentam absorver toda a chama que, por fim, as consome dentro da própria grandeza.”


Matéria extraída da Revista Espírita ano I Outubro de 1995 nº 10, escrita por Elias Barbosa, IDE.
Link da Página: http://www.editoraideal.com.br/ler_materia.php?id=96
(Publicado em 23/03/2010)
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