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Grupo de Ideal Espírita André Luiz

O CORPO ESPIRITUAL NA CONCEPÇÃO E ENCARNAÇÃO
Dois momentos importantíssimos, com relação ao corpo espiritual, são os momentos da encarnação e da desencarnação do Espírito, tendo em vista as transformações que deve sofrer no processo de adaptação, ao mundo novo que reingressa, num e noutro sentido.

Vamos estudar o processo da encarnação desdobrando-o em três partes que são sequentes, a saber: o restringimento do corpo espiritual, a interpenetração do corpo espiritual do renascente com o da genitora e a gestação em si, para concluirmos com as consequências que podemos tirar de tudo o que já nos foi revelado pelos Espíritos, sobre o assunto, e que está nos livros da vasta bibliografia espírita atual.

Dispomos de um modelo de encarnação, que está no livro Missionários da Luz (1), e, assim, vamos começar por esse caso descrito por André Luiz às vezes até com minúcias, para nos informarmos quanto ao restringimento do corpo espiritual do reencarnante e a forma em que se processou. Acompanhemos o relato:

“Os Espíritos Construtores começaram o trabalho de magnetização do corpo perispirítico, no que eram amplamente secundados pelo esforço do abnegado orientador, que se mantinha dedicado e firme em todos os campos de serviço.

“Sem que me possa fazer compreendido de pronto, pelo leitor comum, devo dizer que “alguma coisa da forma de Segismundo estava sendo eliminada”. Quase que imperceptivelmente, à medida que se intensificavam as operações magnéticas, tornava-se ele mais pálido. Seu olhar parecia penetrar outros domínios. Tornava-se vago, menos lúcido.

“A certa altura, Alexandre falou-lhe com autoridade:

“Segismundo, ajude-nos! Mantenha clareza de propósitos e pensamento firme!
“ Tive a impressão de que o reencarnante se esforçava por obedecer.

“– Agora – continuou o instrutor – sintonize conosco relativamente à forma pré-infantil. Mentalize sua volta ao refúgio maternal da carne terrestre! Lembre-se da organização fetal, faça-se pequenino! imagine a sua necessidade de tornar a ser criança para aprender a ser homem!

“Compreendi que o interessado precisava oferecer o maior coeficiente de cooperação individual para o êxito amplo. Surpreendido, reconheci que, ao influxo magnético de Alexandre e dos Construtores Espirituais, a forma perispirítica de Segismundo tornava-se reduzida.

“A operação não foi curta, nem simples. Identificava o esforço geral para que se efetuasse a redução necessária.

“Segismundo parecia cada vez menos consciente. Não nos fixava com a mesma lucidez e suas respostas às nossas perguntas afetuosas não se revelavam completas.

“Por fim, com grande assombro meu, verifiquei que a forma de nosso amigo assemelhava-se à de uma criança.”

Quando se diz que o corpo espiritual foi restringido para o tamanho de uma criança, precisamos entender que esta palavra tem sentido amplo e a usamos para uma grande gama de idades.

A que tamanho foi restringido o corpo espiritual de Segismundo? Embora não esteja expressamente declarado essa redução teria alcançado o tamanho da organização fetal? Realmente, o instrutor pediu ao reencarnante: Lembre-se da organização fetal, faça-se pequenino! Nesse passo, a organização fetal não tem exatamente o tamanho do ovo resultante do encontro do óvulo feminino com o espermatozóide masculino porque o produto da concepção chama-se feto a partir do momento em que o embrião começa a ter aparência humana, em torno da oitava semana de gestação. Como veremos adiante, trata-se aqui tão-só do corpo mental, que remanesce no restringimento.

Dito isto e considerando que nos importa saber como ocorre a encarnação e a adequação do corpo espiritual em outros níveis de Espíritos, prossigamos com os esclarecimentos que o Autor nos dá:

“O que vimos, porém, com Segismundo – perguntei – é regra geral para todos os casos?

“– De modo algum – respondeu o instrutor atencioso –, os processos de reencarnação, tanto quanto os da morte física, diferem ao infinito, não existindo, segundo cremos, dois absolutamente iguais. As facilidades e obstáculos estão subordinados a fatores numerosos, muitas vezes relativos ao estado consciencial dos próprios interessados no regresso à Crosta ou na libertação dos veículos carnais. Há companheiros de grande elevação que, ao voltarem à esfera mais densa em apostolado de serviço e iluminação, quase dispensam o nosso concurso. Outros irmãos nossos, contudo, procedentes de zonas inferiores, necessitam de cooperação muito mais complexa que a exercida no caso Segismundo.

“– Não deveriam renascer, porém – interroguei curioso –, tão somente aqueles que se revelassem preparados?

“– Não podemos esquecer, no entanto – refutou meu esclarecido interlocutor –, que a reencarnação é o curso repetido de lições necessárias. A esfera da Crosta é uma escola divina. E o amor, por intermédio das atividades “intercessórias”, reconduz diariamente ao banco escolar da carne milhões de aprendizes.

“O orientador amigo calou-se por alguns instantes e prosseguiu:

“– A reencarnação de Segismundo obedece às diretrizes mais comuns. Traduz expressão simbólica da maioria dos fatos dessa natureza, porquanto o nosso irmão pertence à enorme classe média dos Espíritos que habitam a Crosta, nem altamente bons, nem conscientemente maus. Acresce notar, todavia, que a volta de certas entidades das regiões mais baixas ocasiona laboriosos e pacientes esforços dos trabalhadores de nosso plano. Semelhantes seres obrigam a processos de serviço que você gastará ainda muito tempo para compreender.”

Vimos que se trata aqui da reencarnação de Espírito de mediana elevação entre os que se acham encarnados na Terra.

Para Espíritos abaixo dessa condição, eis o que nos diz André Luiz em Evolução em Dois Mundos (2):

“Para isso, os candidatos à reencarnação, em superioridade suficiente de modo a supervisioná-la com o seu próprio critério e distantes da inferioridade primitivista que deles faria escravos absolutos da herança física, são admitidos a instituições-hospitais em que magnetizadores desencarnados, bastante competentes pela nobreza íntima, se incumbem de aplicar-lhes fluidos balsamizantes que os adormeçam por períodos variáveis, de conformidade com a evolução moral que enunciem, a fim de que os princípios psicossomáticos se adaptem a justo restringimento, em bases de sonoterapia.”

Vê-se que se trata de outra modalidade de restringimento, de mais longe tempo de realização, através da sonoterapia provocada por magnetizadores desencarnados especializados.

No livro Cidade no Além (3), e agora em outro livro da mesma Autora, Imagens do Além (4), vemos um edifício, chamado pavilhão do restringimento, onde são executados esses processos de restringimento pela sonoterapia e os pacientes ficam, ao que parece, depositados em gavetões enquanto se desenrola o tratamento magnético.

Agora nos surge uma novidade quanto ao restringimento do corpo espiritual, aplicado em Espíritos da terceira categoria, Espíritos atrasados que dependem de reencarnação compulsória, e que precisam aguardar o momento adequado por tempo imprevisível.

Trata-se de equipamento de efeitos magnéticos que produz o restringimento do corpo espiritual do reencarnante reduzindo-o a uma forma ovalada diminuta, onde estão preservados todos os centros de força e os elementos do corpo espiritual, que é chamado de sêmen espiritual, uma vez que deve ser ingerido pela genitora, no plano espiritual, no momento da concepção, como veremos mais adiante.

Naquele livro, falando sobre o assunto, em trecho que iremos transcrever mais adiante, Francisco Cândido Xavier nos dá a informação de que, no restringimento, sobra um despojo que é convenientemente enterrado num cemitério e que, ao que tudo indica, nos parece ser a matéria do corpo espiritual.

Vale também a oportunidade para lembrar que, quando descreveu o restringimento de Segismundo, vimos que André Luiz se referiu que:

“– Sem que possa me fazer compreendido de pronto, pelo leitor comum, devo dizer que “alguma coisa” da forma de Segismundo estava sendo eliminada.”

Essa alguma coisa, sem dúvida, é a matéria do corpo espiritual, o despojo que é enterrado no cemitério.

Com as informações acima, podemos nos inteirar que existem muitos processos para o restringimento do corpo espiritual do Espírito reencarnante, tudo condicionado ao seu estado espiritual, à sua elevação, aos seus méritos e deméritos e que o restringimento, implica na perda do corpo espiritual, remanescendo apenas o corpo mental do reencarnante que contém a matriz do corpo espiritual.

Aliás, em seu livro Libertação (5) André Luiz nos afirma categoricamente que, no restringimento para a encarnação, há a perda do corpo espiritual como se vê adiante:

“Gúbio sorriu e considerou:

“– Sabes, assim, que o vaso perispirítico é também transformável e perecível, embora estruturado em tipo de matéria mais rarefeita.

“– Sim... – acrescentei, reticencioso, em minha sede de saber.

“– Viste companheiros – prosseguiu o orientador –, que se desfizeram dele, rumo às esferas sublimes, cuja grandeza por enquanto não nos é dado sondar, e observaste irmãos que se submeteram a operações redutíveis e desintegradoras dos elementos perispiríticos para renascerem na carne terrestre. Os primeiros são servidores enobrecidos e gloriosos, no dever bem cumprido, enquanto que os segundos são colegas nossos, que já merecem a reencarnação trabalhada por valores intercessores, mas, tanto quanto ocorre aos companheiros respeitáveis desses dois tipos, os ignorantes e os maus, os transviados e os criminosos também perdem, um dia, a forma perispiritual.” (O grifo é nosso)

Nosso próximo passo será saber como o corpo espiritual do Espírito reencarnante, ou o que dele resta, se interpenetra ao corpo espiritual da mãe, liga-se a ele.

Vamos voltar à descrição do processo reencarnatório de Segismundo, a partir do momento em que a mãe, no plano espiritual, recebe o Espírito reencarnante para que se efetue a ligação mãe-filho.

“Notei, embora a comoção do momento, que o meu instrutor fez um gesto à depositária de Segismundo, para que efetuasse a entrega do reencarnante aos braços maternais.

“Raquel, dando-me a impressão de que não via a luminosa auréola, ergueu os olhos rasos de lágrimas e recebeu o depósito que o Céu lhe confiava. Alexandre estendeu-lhe a destra, ajudando-a a levantar-se, e vi que Adelino se aproximou da esposa, estreitando-a carinhosamente nos braços, beijando-lhe a fronte orvalhada de luz.

“Foi então, ó divino mistério da Criação Infinita de Deus!, que a via apertar a “forma infantil” de Segismundo de encontro ao coração, mas tão fortemente, tão amorosamente, que me pareceu uma sacerdotisa do Poder da Divindade Suprema. Segismundo ligara-se a ela como a flor se une à haste. Então compreendi que, desde aquele momento, era alma de sua alma aquele que seria carne de sua carne.”

Vemos aqui o processo pelo qual a forma restringida do reencarnante se integrou, ou se interpenetrou no perispírito da mãe, com base no poder da vontade desta, que o conduziu mentalmente ao local onde depois deveria ser completada a ligação.

Vamos lembrar que outra maneira dessa interpenetração é aquela a que nos referimos do sêmen espiritual, resultante do restringimento feito num equipamento de efeitos magnéticos do qual resulta uma forma ovalada diminuta onde estão contidos todos os princípios energéticos e espirituais do reencarnante, um verdadeiro ovóide ou corpo mental reduzido.

No mesmo momento do exemplo acima, isto é, antes que o espermatozóide fecunde o óvulo, no plano espiritual, a genitora ingere essa forma restringida, substrato do Espírito reencarnante, que vai ligar-se ao organismo materno, e, do mesmo modo, aguardar, logo depois, a sua ligação definitiva com a célula-ovo.

Há, pois, uma fecundação física e uma fecundação espiritual, entendendo-se esta como sendo a integração do Espírito do reencarnante ao corpo espiritual da mãe para a gestação do novo ser.

Do livro Imagens do Além, já citado, retiramos estes apontamentos que falam muito desta verdadeira novidade do processo de reencarnação, a saber:

“Quando apresentamos ao nosso Chico Xavier, o desenho do restringimento, ele nos disse:

“– Heigorina é isto mesmo o Restringimento. O processo é mais lento, tratando-se de reencarnação compulsória, nesta categoria de Espírito. Leva mais de ano para completar o restringimento.

“ Assim que se inicia a fase do sono letárgico, o corpo espiritual vai se despojando da matéria grosseira, ficando o perispírito sutil, sem trazer-lhe prejuízo algum. Por exemplo: “A cobra que deixa a casca.”

“Olhando-nos com uma pausa, acrescentou depois:

“– Este despojo grosseiro é enterrado em lugar próprio, num Cemitério.

“Apontando depois o desenho do resultado do restringimento, que tem a forma ovalada lembrando uma pastilha, nos informou:

“– Quer seja Senhora ou a Mãe Solteira, se não tiver no ventre materno o sêmen espiritual, não há fecundação pelo espermatozóide. Há a concepção espiritual e a material.”

Como vemos, esta informação é coisa muito séria, ao mesmo tempo que é extremamente lógica. Nunca ocorreu a ninguém perguntar como o corpo espiritual do Espírito reencarnante se ligava ao corpo espiritual da mãe; até agora sabíamos apenas que bastava a fecundação do óvulo pelo espermatozóide para que se iniciasse e se desenvolvesse a gestação, a encarnação do Espírito.

Resta-nos agora verificar como ocorre a ligação final do Espírito reencarnante ao organismo da genitora.

Voltemos ao caso Segismundo, para seguir-lhe o desenvolvimento procurando captar as informações preciosas que ali estão:

“ (...) Sempre sob o influxo luminoso-magnético de Alexandre, o elemento vitorioso prosseguiu a marcha, depois de atravessar a periferia do óvulo, gastando pouco mais de quatro minutos para alcançar o seu núcleo. Ambas as forças, masculina e feminina, formavam agora uma só, convertendo-se ao meu olhar em tenuíssimo foco de luz. O meu orientador, absolutamente entregue ao seu trabalho, tocou a pequenina forma com a destra, mantendo-se no serviço de divisão da cromatina, cujas particularidades são ainda inacessíveis à minha compreensão, conservando a atitude do cirurgião seguro de si, na técnica operatória. Em seguida Alexandre ajustou a forma reduzida de Segismundo, que se interpenetrava com o organismo perispíritico de Raquel sobre aquele microscópico globo de luz, impregnado de vida, e observei que essa vida latente começou a movimentar-se.”

“– Está terminada a operação inicial de ligação. Que Deus nos proteja.”

Este mesmo processo de ligação, naturalmente, é usado no caso a que nos referimos acima, quando a mãe ingere o sêmen ou semente espiritual, que necessita ser, do mesmo modo, ajustado à célula-ovo, que acaba de se formar e que, em seguida, começará a movimentar-se em plena vida.

Antes de prosseguirmos, para melhor compreensão do fenômeno da gestação, vamos recorrer a mais um esclarecimento retirado da mesma fonte:

“Em virtude de anteriores explicações do orientador, relativamente à importância da assistência de Herculano a Segismundo reencarnado, até aos sete anos, procurei obter do instrutor alguma elucidação a respeito. Pedi desculpas a Alexandre, todavia, não me pude furtar à delicada inquirição. Por que tamanho cuidado com o sangue do futuro recém-nascido? Somente aos sete anos iniciais de existência humana estaria terminado o serviço de reencarnação?

“Como sempre acontecia, o nobre mentor ouviu-me, complacente, sorriu qual pai carinhoso, e respondeu, solícito:

“– Você não ignora que o corpo humano tem as suas atividades propriamente vegetativas, mas talvez ainda não saiba que o corpo perispiritual, que dá forma aos elementos celulares, está fortemente radicado no sangue. Na organização fetal, o patrimônio sanguíneo é uma dádiva do organismo materno. Logo após o renascimento, inicia-se o período de assimilação diferente das energias orgânicas, em que o “eu” reencarnado ensaia a consolidação de suas novas experiências e, somente aos sete anos de vida comum, começa a presidir, por si mesmo, ao processo de formação do sangue, elemento básico de equilíbrio ao corpo perispirítico ou forma preexistente, no novo serviço iniciado. O sangue, portanto, é como se fora o fluido divino que nos fixa as atividades no campo material e em seu fluxo e refluxo incessantes, na organização fisiológica, nos fornece o símbolo do eterno movimento das forças sublimes da Criação Infinita. Quando a sua circulação deixa de ser livre, surge o desequilíbrio ou enfermidade e, se surgem obstáculos que impedem o seu movimento, de maneira absoluta, então sobrevêm à extinção do tônus vital, no campo físico, ao qual se segue a morte com a retirada imediata da alma.”

Vê-se, pois, a importância do sangue, de sua circulação no organismo para a manutenção da vida, e a importância ainda maior do sangue materno para os efeitos da concepção de um novo corpo.

Vamos agora tentar juntar esses elementos, acima expostos e retirados dos livros, para entendermos o fenômeno do renascimento, considerado tanto o corpo material quanto o perispírito do reencarnante.

Antes, porém, vamos voltar a transcrever uma importante afirmativa de Francisco Cândido Xavier em conversa com Heigorina Cunha, autora do livro Imagens do Além, de onde retiramos o referido trecho:

“– Quer seja Senhora ou a Mãe Solteira, se não tiver no ventre materno o sêmen espiritual, não há fecundação pele espermatozóide. HÁ A CONCEPÇÃO ESPIRITUAL E A MATERIAL.”

Nosso raciocínio vai ser conduzido sobre essa afirmação muito clara e muito lógica que destacamos de que há a concepção espiritual e a material.

O restringimento do corpo espiritual para efeitos de reencarnação em nosso plano físico, implica na sua separação do seu corpo mental, uma espécie de morte, uma vez que os seus despojos são até enterrados em cemitério próprio, Os textos que trouxemos acima nos indicam isto claramente, apesar de estarem velados, reticentes.

Aceita essa premissa, vimos que o corpo mental do reencarnante, levado para o interior do perispírito da genitora liga-se a ela magneticamente, e que, depois, a ligação se faz com a célula-ovo antes de começar o seu movimento de vida, ajustando-se o corpo mental reduzido do reencarnante a ela, célula-ovo.

Dado o toque inicial, começa a movimentação, se inicia a vida do novo ser em formação, que necessita, e isto é muito importante, não apenas de um corpo físico mas também de novo perispírito já que o perdeu no restringimento.

Uma vez iniciada a gestação, o novo corpo físico em formação é alimentado e mantido pelo sangue do corpo físico da genitora que o supre da matéria física que ele necessita, e que se estrutura e se organiza sob a influência do perispírito do reencarnante que caminha junto.

De outro lado, o novo perispírito em formação é alimentado e mantido pelo sangue do perispírito da genitora, que também o supre da matéria espiritual que ele necessita, e que se estrutura e se organiza sob a influência do corpo mental do Espírito reencarnante, que contém a matriz fundamental, e, por sua vez, condiciona a formação do corpo físico ao qual está ligado desde o início.

Estas conclusões podem parecer soar com estranheza porque, realmente, nunca se cogitou de pensar num processo de gestação fora dos limites da esfera física.

No entanto, basta que se raciocine com lógica para sentir que não pode ser de outro modo, uma vez que aceitamos ser o perispírito um corpo organizado igual o nosso – muito mais do que isto, porque lhe é matriz –, com células e órgãos, funções e faculdades idênticas.

Por que num processo de gestação o aparelhamento genésico da perispírito da mãe estaria inativo se é ele mesmo que deve controlar o processo do corpo físico?

Se o corpo perispiritual está fortemente radicado no sangue, sendo ele que dá forma aos elementos celulares, por que a corrente sanguínea do perispírito da mãe não estaria circulando pelo perispírito do renascente para ensejar a estruturação de seu organismo?

Do mesmo modo que os elementos nutritivos da alimentação exterior alcançam o corpo físico, ou o corpo espiritual, pela corrente sanguínea, os nutrientes de natureza espiritual que nos chegam através do perispírito passam pelo mesmo caminho, ou seja, de sangue para sangue, do sangue do perispírito em formação para o sangue do produto da concepção.

Tudo nos parece tão lógico depois de entendermos as aberturas que André Luiz nos dá nos trechos trazidos para estudo, e ainda mais depois da afirmação categórica de nosso querido irmão Francisco Cândido Xavier, nesse sentido.

Quanto mais enobrecido fica um fenômeno de renascimento no mundo físico quando pensamos que a genitora está gerando não apenas um corpo físico, mas também um perispírito! No entanto, também, quanta responsabilidade a mais!

Em seu livro Evolução em Dois Mundos (6), assim leciona André Luiz:

“RETRATO DO CORPO MENTAL – Para definirmos, de alguma sorte, o corpo espiritual, é preciso considerar, antes de tudo, que ele não é reflexo do corpo físico, porque, na realidade, é o corpo físico que o reflete, tanto quanto ele próprio, o corpo espiritual, retrata em si o corpo mental que lhe preside a formação.”

E, ao pé da página, esclarece em nota:

“O corpo mental, assinalado experimentalmente por diversos estudiosos, é o envoltório sutil da mente, e que, por agora, não podemos definir com mais amplitude de conceituação, além daquela com que tem sido apresentado pelos pesquisadores encarnadas e isto por falta de terminologia adequada no dicionário terrestre.”

Apliquemos essas definições ao nosso estudo da gestação e encarnação.

Vimos que, com o restringimento, o Espírito reencarnante perde o seu corpo espiritual ficando-lhe apenas a corpo mental, que vai ser ligado à célula-ovo para o processo conceptivo.

Vimos acima que o corpo mental encerra em si todas as informações e características do ser, uma vez que ele conduz a formação do corpo espiritual, na gestação do perispírito que o reflete, e que este, por sua vez, vai condicionar a formação do corpo físico que será seu reflexo.

Há, pois, um encadeamento lógico e um processo, como dissemos, também muito lógico onde o Espírito, sediado provisoriamente só no corpo mental, preside a formação de seu corpo espiritual ou perispírito, passando-lhe os condicionamentos de sua vida cármica de modo a fixar-lhe as diretrizes de sua nova vida.

No que concerne à atuação desse novo perispírito em formação sobre a formação do corpo físico, para esclarecimento dos nossos leitores, vamos recorrer novamente aos ensinamentos de André Luiz, retirados do seu livro Missionários da Luz (7):

“– Nosso irmão reencarnante apresentar-se-á, mais tarde, entre os homens, tal qual vivia entre nós? Já que as suas instruções se baseiam na forma perispiritual preexistente, terá ele a mesma altura, bem como as mesmas expressões que o caracterizam em nossa esfera?

“Alexandre respondeu sem titubear:

“– Raciocine devagar, André! Falamos da forma preexistente, nela significando o modelo de configuração típica ou, mais propriamente, o “uniforme humano”. Os contornos e minúcias anatômicas vão desenvolver-se de acordo com os princípios de equilíbrio e com a lei da hereditariedade. A forma física futura de nosso amigo Segismundo dependerá dos cromossomas paternos e maternos; adicione, porém, a esse fator primordial, a influência dos moldes mentais de Raquel, a atuação do próprio interessado, o concurso dos Espíritos Construtores, que agirão como funcionários da natureza divina, invisível ao olhar terrestre, o auxílio afetuoso das entidades amigas que visitarão constantemente o reencarnante, nos meses de formação do novo corpo, e poderá fazer uma idéia da que vem a ser o templo físico que ele possuirá, por algum tempo, como dádiva da Superior Autoridade de Deus, a fim de que se valha da bendita oportunidade de redenção do passado e iluminação para o futuro, no tempo e no espaço. Alguns fisiologistas da Crosta concordam em asseverar que a vida humana é uma resultante de conflitos biológicos, esquecidos de que, muitas vezes, o conflito aparente das forças orgânicas não é senão a prática avançada da lei da cooperação espiritual.”

“– Segismundo terá então – insisti – uma forma física eventual, imprecisa, por enquanto, ao nosso conhecimento?

“O instrutor esclareceu sem demora:

“– Se estivéssemos diretamente ligados ao caso dele, estaríamos de posse de todas as informações referentes ao porvir, nesse particular, mas a nossa colaboração nesse acontecimento é transitória e sem maior significação no tempo. Os orientadores de Segismundo, porém, nas esferas mais altas, guardam o programa traçado para o bem do reencarnante. Note que me refiro ao bem e não ao destino. Muita gente confunde plano construtivo com fatalismo. O próprio Segismundo e o nosso irmão Herculano estão de posse dos informes a que nos reportamos, porque ninguém penetra num educandário, para estágio mais ou menos longo, sem finalidade específica e sem conhecimento dos estatutos que deve obedecer.

“Nesse ponto, o mentor generoso fez ligeiro intervalo e continuou em seguida:

“– Os contornos anatômicos da forma física, disformes ou perfeitos, longilíneos ou brevilíneos, belos ou feios, fazem parte dos estatutos educativos. Em geral, a reencarnação sistemática é sempre um curso laborioso de trabalho contra os defeitos morais preexistentes nas lições e conflitos presentes. Pormenores anatômicos imperfeitos, circunstâncias adversas, ambientes hostis, constituem, na maioria das vezes, os melhores lugares de aprendizado e redenção para aqueles que renascem. Por isso, o mapa de provas úteis é organizado com antecedência, como o caderno de apontamentos dos aprendizes nas escolas comuns. Em vista disso, o mapa alusivo a Segismundo está devidamente traçado, levando-se em conta a cooperação fisiológica dos pais, a paisagem doméstica e o concurso fraterno que lhe será prestado por inúmeros amigos daqui. Imagine, pois, o nosso amigo voltando a uma escola, que é a Terra; assim procedendo, alimenta um propósito que é o da aquisição de valores novos. Ora, para realizá-la terá de submeter-se às regras do educandário, renunciando, até certo ponto, à grande liberdade de que dispõe em nosso meio.”

Entende-se, assim, a relatividade do reflexo que o corpo espiritual vai impor ao corpo físico, ele que, por sua vez, está refletindo o molde fundamental que está no corpo mental ligado ao processo da concepção.

Nunca se falou anteriormente da gestação do corpo espiritual, simultaneamente à do corpo físico, no processo de encarnação. Temos isto, pois, como uma novidade que, no entanto, embora seja muito lógica e repouse sobre as informações que encontramos nos livros, merece ser melhor esclarecida com uma prova que nos veio através da mediunidade de nosso irmão Francisco Cândido Xavier e que se encontra em seu livro Quem são (8) em seu capítulo 15, onde através de cartas recebidas mediunicamente, estão contados os pormenores da desencarnação de uma família inteira em desastre de automóvel.

O casal Valdir e Maria das Graças Gregh, juntamente com as filhas Ana Paula e Alessandra, eram os ocupantes de uma Variant que foi completamente esmagada por um caminhão carregado de refrigerantes. A senhora Maria das Graças estava grávida, às vésperas de dar à luz, uma vez que esperava o nascimento de um filho a partir da segunda quinzena de janeiro de 1976, e o desastre ocorreu na noite de 16 de dezembro de 1975.

Depois de descrever pormenores do acidente fatal, em determinado trecho de sua carta, dona Maria das Graças assim se expressou:

“Não vi mais o esposo, porque uma energia esquisita me selou as pálpebras para um sono que não poderia evitar.

“Foi um sonho indescritível, porque me vi, como num pesadelo, arrastada para fora de um turbilhão de destroços e acomodada em grande maca, na idéia de que continuava em meu corpo físico, a caminho de um hospital.

“Por mais estranho que possa parecer, o meu pesadelo-realidade era feito de impressões e dores condicionadas DE UM PARTO PREMATURO.

“Achava-me dopada por medicamentos ou forças que até hoje não sei explicar, e senti perfeitamente que UMA CESARIANA SE PROCESSAVA.

“Sentia-me fora do desastre, entre o reconforto de SER MÃE NOVAMENTE e a dor da dúvida sobre o Valdir e sobre as crianças que ficavam na retaguarda.

“Depois disso, veio o sono de verdade, do qual acordei perplexa, perguntando pelos meus.

“A CRIANÇA REPOUSAVA JUNTO DE MIM.

“Chorei e implorei pela vinda do Valdir e da senhora, até que alguém se aproximou de mim e falou-me com carinho de toda a extensão da ocorrência, esclarecendo-me que em meu caso A CRIANÇA EM ESPÍRITO JÁ SE ACHAVA PERFEITAMENTE FORMADA E QUE NÃO PODERÍAMOS EXIGIR UMA ELIMINAÇÃO SUMÁRIA DO COMPANHEIRINHO A NASCER.

“O espanto me tomou de todo o coração.” (Os destaques do texto são nossos)

“Chamo Júnior o caçula que se me desgarrou do seio aqui na vida espiritual.”

Temos, pois, o relato de um fato que não só nos comprova a gestação do perispírito como nos mostra que o novo ser pode vir à luz no mundo espiritual, ali vingando e prosseguindo sua vida, ainda que necessária, como foi, uma intervenção cirúrgica.

Eis o que nos diz o organizador do referido livro, nosso confrade Elias Barbosa, constatando o ocorrido;

“Ora, se D. Maria das Graças está às vésperas de dar à luz (esperava o nascimento do filho, a partir da segunda quinzena de janeiro de 1976), por que semelhante ocorrência – o parto natural ou a cesárea – não poderia se processar, no Plano Extra-físico? Por que não?”

Realmente, dizemos nós também: por que não? Por que deveria ser diferente se tudo o que se apreciou aqui até agora não passa do natural dentro da lógica da vida?

Certamente, deve-se entender que até mesmo muitos espíritas materialistas, dizendo melhor, que não aprenderam ainda a entender que a matéria, sendo apenas aparência, na verdade não existe, que tudo é energia, que tudo é espiritual, possam tropeçar para entender essa maneira de facear os processas de vida material e espiritual.

Na entanto, assim é, apesar do que queiramos pensar a respeito, uma vez que Deus não necessita de nosso consentimento para organizar a Vida, que a Natureza está organizada de maneira a que a vida se encadeie e se desenvolva progressivamente.

Agora que sabemos que existem a gestação do corpo físico e a gestação do corpo espiritual, ou perispírito, vamos considerar o caso de interrupção desse processo pelo aborto, natural ou provocado.

No caso de um acidente natural, sendo ele uma consequência das leis naturais, estando o perispírito já formado, de modo a subsistir no Mundo Maior, como vimos no exemplo acima, a criança espiritual, por parto natural ou cesárea, é aproveitada para continuar sua caminhada naquele plano.

Ocorrendo o aborto natural, sem qualquer laivo de culpa, o produto da concepção, no estágio que estiver, deverá ser eliminado, em sua forma material e em sua forma espiritual, ao mesmo tempo.

Uma questão muito séria, que devemos considerar agora, é o fato da gestação do perispírito tendo em vista a interrupção do processo pelo aborto provocado.

A parte do perispírito do renascente já formada, por ocasião do fato, sairia do corpo espiritual da mãe juntamente com o corpo físico arrancado? Isto é muito improvável.

Como vimos no exemplo acima, mesmo quando ocorre a desencarnação da mãe, a parte já formada do perispírito acompanha o corpo espiritual da genitora. No caso, o perispírito já estava no oitavo mês de gestação e, assim, tendo em vista o choque violento da desencarnação, foi necessário recorrer à cesárea para a retirada do corpo espiritual do reencarnante de dentro do corpo espiritual da genitora.

Note-se a dificuldade da separação obrigando a uma intervenção cirúrgica, tendo em vista que o nascimento natural não chegara ao tempo necessário e num processo onde não havia qualquer culpa pela interrupção.

Agora imaginemos na dificuldade de fazer-se essa separação, do perispírito da mãe e do perispírito do renascente, em qualquer fase que esteja de gestação, já que, como frisou André Luiz, uma vez ligado magneticamente à progenitora, já é alma de sua alma aquele que irá ser carne de sua carne.

No livro do mesmo autor, No Mundo Maior (9), capítulo 10, temos descrito um caso de aborto provocado na fase embrionária, por mãe solteira que queria esconder sua falta, e que pressentia a chegada de um inimigo do passado na forma de filho, a qual, depois de esclarecida, em espírito, pelo Espírito de sua mãe, da falta que iria cometer, ainda assim persistiu no intento. Vamos, pois, passar a transcrever a parte final, quando começa a operação abortiva.

“A paciente, no entanto, ficou irredutível. E, com assombro nosso, ante a genitora desencarnada, em pranto, a operação começou, com sinistros prognósticos para nós, que observamos a cena, sensibilizadíssimos.

“Nunca supus que a mente desequilibrada pudesse infligir tamanho mal ao próprio patrimônio.

“A desordem do cosmo fisiológico acentuou-se, instante a instante.

“Penosamente surpreendido, prossegui no exame da situação, verificando com espanto que o embrião reagia ao ser violentado, como que aderindo, desesperadamente, às paredes placentárias.

“ A mente do filhinho imaturo começou a despertar à medida que aumentava o esforço de extração. Os raios escuros não partiam agora só do encéfalo materno; eram igualmente emitidos pela organização embrionária, estabelecendo maior desarmonia.

“Depois de longo e laborioso trabalho, o entezinho foi retirado afinal...

“Assombrado, reparei, todavia, que a ginecologista improvisada subtraia ao vaso feminino somente pequena porção de carne inânime, porque a entidade reencarnante, como se a mantivessem atraída ao corpo materno forças vigorosas e indefiníveis, oferecia condições especialíssimas, adesa ao campo celular que a expulsava. Semidesperta, num atro pesadelo de sofrimento refletia extremo desespero; lamentava-se com gritos aflitivos; expedia vibrações mortíferas; balbuciava frases desconexas.

“Não estaríamos, ali, perante duas feras terrivelmente algemadas uma à outra? O filhinho que não chegara a nascer transformara-se em perigoso verdugo do psiquismo materno. Premindo com impulsos involuntários o ninho de vasos do útero, precisamente na região onde se efetua a permuta dos sangues materno e fetal, provocou ele o processo hemorrágico, violento e abundante.

“Observei mais.

“Deslocado indebitamente e mantido ali por forças incoercíveis, o organismo perispirítico da entidade, que não chegara a renascer, alcançou em movimentos espontâneos a zona do coração. Envolvendo os nódulos da aurícula direita, perturbou as vias de estímulo, determinando choques tremendos no sistema nervoso central.

“Tal situação agravou o fluxo hemorrágico, que assumiu intensidade imprevista, compelindo a enfermeira a pedir socorros imediatos, depois de delir, como pode, os vestígios de sua falta.

“– Odeio-o! odeio-o! – clamava a mente materna em delírio, sentindo ainda a presença do filho na intimidade orgânica. – Nunca embalarei um intruso que me lançaria à vergonha!

“Ambos, mãe e filho, pareciam agora, por dizer mais exatamente, sintonizados na onda de ódio, porque a mente dele, exibindo estranha forma de apresentação aos meus olhos, respondia, no auge da ira:

“– Vingar-me-ei! Pagarás ceitil por ceitil! não te perdoarei!... Não me deixaste retomar a luta terrena, onde a dor, que nos seria comum, me ensinaria a desculpar-te pelo passado delituoso e a esquecer minhas cruciantes mágoas... Renegaste a prova que nos conduziria ao altar da reconciliação. Cerraste-me as portas da oportunidade redentora; entretanto, o maléfico poder, que impera em ti, habita igualmente minhalma... Trouxeste à tona de minha razão o lodo da perversidade que dormia dentro de mim. Negas-me o recurso da purificação, mas estamos agora novamente unidos e arrastar-te-ei para o abismo... Condenaste-me à morte, e, por isso, minha sentença é igual. Não me deste o descanso, impediste meu retorno à paz da consciência, mas não ficarás por mais tempo na Terra... Não me quiseste para o serviço do amor... Portanto, serás novamente minha para a satisfação do ódio. Vingar-me-ei! Seguirás comigo!

“Os raios mentais destruidores cruzavam-se, em horrendo quadro, de espírito a espírito.

“Enquanto observava a intensificação das toxinas, ao longo de toda a trama celular, Calderaro orava em silêncio, invocando o auxílio exterior, ao que me pareceu. Efetivamente, daí a instantes, pequena turma de trabalhadores espirituais penetrou o recinto. O orientador ministrou instruções. Deveriam ajudar a desventurada mãe, que permanecia junto da filha infeliz, até a consumação da experiência.

“Em seguida o Assistente convidou-me a sair, acrescentando:

“– Verificar-se-á a desencarnação dentro de algumas horas. O ódio, André, diariamente extermina criaturas no mundo, com intensidade e eficiência mais arrasadoras que as de todos os canhões da Terra troando a uma vez. É mais poderoso, entre os homens, para complicar os problemas e destruir a paz, que todas as guerras conhecidas pela Humanidade no transcurso dos séculos. Não me ouves mera teoria. Viveste conosco, nestes momentos, um fato pavoroso, que todos os dias se repete na esfera carnal. Estabelecido o império de forças tão detestáveis sobre essas duas almas desequilibradas, que a Providência procurou reunir no instituto da reencarnação, é necessário confiá-Ias doravante ao tempo, a fim de que a dor opere os corretivos indispensáveis.

“– Oh! – exclamei aflito, contemplando o duelo de ambas as mentes torturadas –, como ficarão? permanecerão entrelaçadas, assim? e por quanto tempo?

“Calderaro fitou-me com o acabrunhamento de um soldado valoroso que perdeu temporariamente a batalha, e informou:

“– Agora, nada vale a intervenção direta. Só poderemos cooperar com a oração do amor fraterno, aliada à função renovadora da luta cotidiana. Consumou-se para ambos doloroso processo de obsessão recíproca, de amargas consequências no espaço e no tempo, e cuja extensão nenhum de nós pode prever.”

Vimos, assim, que o perispírito do reencarnante, embora embrião ainda, não se afastou do organismo materno que o expulsava, e conduzido pelo ódio do Espírito, que despertou na agressão indébita, buscou o coração da genitora para desencarná-la, levando-a junto para o mundo espiritual.

Seria uma regra constante a impossibilidade de arrancar, juntamente com o corpo físico do reencarnante, o seu corpo espiritual? Ficaria esse ser rejeitado, em sua esperada revolta, dentro do corpo espiritual da mãe para martirizá-la e se apropriar, na oportunidade própria, da sua primeira concepção? Com seu ódio, formaria uma segunda natureza interferindo na mente daquela que o rejeitou?

Essas são questões relevantes que devem ser aventadas em todas as pregações contra a prática do aborto, a fim de que a pessoa saiba a extensão do crime que está cometendo e a gravidade, para si, de suas consequências.

Nas ponderações transcritas a seguir, que retiramos do livre Ação e Reação, (10) podemos avaliar, de certa forma, os prejuízos que o corpo espiritual da mulher sofrerá, com a ocorrência do aborto provocado, nas suas vidas posteriores.

“– E o aborto provocado, Assistente? – inquiriu Hilário sumamente interessado. – Diante da circunspecção com que a sua palavra reveste o assunto, é de se presumir seja ele falta grave...

“– Falta grave?! Será melhor dizer doloroso crime. Arrancar uma criança ao materno seio é infanticídio confesso. A mulher que o promove ou que venha a coonestar semelhante delito é constrangida, por leis irrevogáveis, a sofrer alterações deprimentes no centro genésico de sua alma, predispondo-se geralmente a dolorosas enfermidades, quais sejam a metrite, o vaginismo, a metralgia, o enfarte uterino, a tumoração cancerosa, flagelos esses com os quais, muita vez, desencarna, demandando o Além para responder, perante a Justiça Divina, pelo crime praticado. É, então, que se reconhece rediviva, mas doente e infeliz, porque, pela incessante recapitulação mental do ato abominável, através do remorso, reterá por tempo longo a degenerescência das forças genitais.

“– E como se recuperará dos lamentáveis acidentes dessa ordem?

“O Assistente pensou por momentos rápidos e acrescentou:

“– Imaginem vocês a matriz mutilada ou deformada, na mesa da cerâmica. Decerto que a oleiro não se utilizará dela para a modelagem do vaso nobre, mas aproveitar-lhe-á o concurso em experimentas de segunda e terceira classe... A mulher que corrompeu voluntariamente o seu centro genésico receberá de futuro almas que viciaram a forma que lhe é peculiar, e será mãe de criminosos e suicidas, no campo da reencarnação, regenerando as energias sutis do perispírito, através do sacrifício nobilitante com que se devotará aos filhos torturados e infelizes de sua carne, aprendendo a orar, a servir com nobreza e a mentalizar a maternidade pura e sadia, que acabará reconquistando ao preço do sofrimento e trabalho justos...”

Convém frisar que, como aborto provocado, não devemos considerar apenas aqueles em que se empregam meios materiais de extração do produto da concepção, porque há casos em que o Espírito da genitora, não desejando o prosseguimento da gestação, nas primeiras semanas de gravidez, com a ajuda de suas próprias energias mentais, com as quais bombardeia o reencarnante, e desarticula os processos celulares da constituição fetal, pode provocar o aborto frustrando a concepção e assumindo, como vimos, pesada dívida diante de Deus e de si mesma.

Esclarecidas essas consequências da prática do aborto provocado, examinemos o caso de que, quando da concepção, não haja nenhum Espírito para encarnar no novo ser que irá se formar, ou seja, o caso de uma gestação frustrada.

Vamos recorrer novamente ao livro Evolução em Dois Mundos (11) onde essa questão é tratada.

“– Como compreenderemos os casos de gestação frustrada quando não há Espírito reencarnante para arquitetar as formas do feto?

“– Em todos os casos em que há formação fetal, sem que haja a presença de entidade reencarnante, o fenômeno obedece aos moldes mentais maternos.

“Dentre as ocorrências dessa espécie há, por exemplo, aquelas nas quais a mulher, em provação de reajuste do centro genésico, nutre habitualmente o vivo desejo de ser mãe, impregnando as células reprodutivas com elevada percentagem de atração magnética, pela qual consegue formar com o auxílio da célula espermática um embrião frustrado que se desenvolve, embora inutilmente, na medida de intensidade do pensamento maternal, que opera, através de impactos sucessivos, condicionando as células do aparelho reprodutor, que lhe respondem aos apelos segundo os princípios de automatismo e reflexão.”

Na atualidade, portanto, podemos considerar a questão do corpo espiritual, no processo de encarnação, dentro desses princípios que estamos ventilando seguindo as orientações que o Mundo Espiritual, especialmente através de André Luiz, por intermédio de nosso confrade Francisco Cândido Xavier, já nos deu, e que aí estão há muitos anos aguardando serem estudados com mais carinho e profundidade.

Um de nossos amigos nos confessou não poder aceitar totalmente a idéia da perda do corpo espiritual no restringimento preparatório da reencarnação, porque o corpo espiritual tem órgãos, células, um organismo inteiro a ser considerado.

A digressão talvez seja oportuna. Quando transcrevemos os ensinamentos contidos no livro Libertação, pudemos verificar que são três os casos mencionados em que o Espírito perde a corpo espiritual: o primeiro, quando sublimando-se e erguendo-se para as esferas superiores, não mais precisa dele; o segundo caso quando se restringe para o processo de reencarnação, e o terceiro caso quando, pelo monoideísmo em que mergulha o Espírito, por falta de atividade de suas funções, atrofia-se o corpo espiritual ganhando a forma de um ovóide, ou seja, reduzindo-se ao corpo mental.

Para que possamos melhor entender, talvez, o segundo caso, vamos tecer algumas considerações quanto à terceira hipótese.

Falando do selvagem desencarnado cuja aspiração incessante é ressurgir na própria taba e renascer na carne, cujas exalações lhe magnetizam a alma, em vista dessa fixação, estabelece-se nele o monoideísmo pelo qual os outros desejos se lhe esmaecem no íntimo e acentua:

“Pela oclusão de estímulos outros, os órgãos do corpo espiritual se retraem ou se atrofiam por ausência de função, e se voltam, instintivamente, para a sede do governo mental, onde se localizam ocultos e definhados, no fulcro dos pensamentos em circuito fechado sobre si mesmos, quais implementos potenciais do germe vivo entre as paredes do ovo.”

Sabemos, por definição anterior, que o corpo mental é a sede do Espírito e que nele estão todas as codificações para que, no momento oportuno, possa plasmar o corpo espiritual que, como vimos o reflete. Logo o que o autor está dizendo acima é exatamente isso, que tudo se volta e se contém no corpo mental da criatura. Vejamos a sequência do assunto e vamos ver que está mais clara ainda essa referência.

“– Sentindo-se em clima adverso ao seu modo de ser, o homem primitivo, desenfaixado do envoltório físico, recusa-se ao movimento na esfera extra-física, submergindo lentamente, na atrofia das células que lhe tecem o corpo espiritual, por monoideísmo auto-hipnotizante, provocado pelo pensamento fixo - depressivo que lhe define o anseio de retorno ao abrigo fisiológico.

“Nesse período afirmamos habitualmente que o desencarnado PERDEU O SEU CORPO ESPIRITUAL transubstanciando-se num corpo ovóide, o que ocorre aliás a inúmeros desencarnados outros, em situação de desequilíbrio, cabendo-nos notar que essa forma, segundo a nossa maneira atual de percepção, EXPRESSA O CORPO MENTAL DA INDIVIDUALIDADE, a encerrar consigo, conforme os princípios ontogenéticos da Criação Divina, TODOS OS ÓRGÃOS VIRTUAIS DE EXTERIORIZADO DA ALMA, NOS CÍRCULOS TERRESTRES E ESPIRITUAIS, (os destaques são nossos) assim como o ovo, aparentemente simples, guarda hoje a ave poderosa de amanhã, ou como a semente minúscula, que conserva nos tecidos embrionários a árvore vigorosa em que se transformará no porvir.”

Esse estado em que mergulha somente se reverte pela reencarnação, e, sem dúvida, ele está apto assim para a ligação com o organismo da mãe, nos moldes que já vimos. Eis o que nos ensina André Luiz, na sequência, para nos elucidar:

“Assimilando recursos orgânicos com o auxílio da célula feminina, fecundada e fundamentalmente marcada pelo gene paterno, A MENTE ELABORA, POR Sl MESMA, NOVO VEÍCULO FlSIOPSICOSSOMÁTICO, atraindo para as SEUS MOLDES OCULTOS as células físicas a se reproduzirem por cariocinese, de conformidade com a orientação que lhe é imposta, isto é, refletindo as condições em que ela, a mente desencarnada, se encontra.

“PLASMA-SE-LHE, desse modo, COM A NOVA FORMA CARNAL, NOVO VEÍCULO AO ESPÍRITO, que se refaz ou se reconstitui em formação recente, entretecido de células sutis, VEÍCULO ESTE QUE EVOLUIRÁ igualmente depois do berço e que persistirá depois do túmulo.”(os destaques são nossos)

Evidentemente, na nossa condição atual, não nos é fácil compreender todas essas minúcias e, pensamos, poderíamos dizer que, no restringimento, o Espírito reencarnante perde a matéria de seu corpo espiritual, e, com isto, que pode inclusive ser a realidade sintética do problema, facilitamos a compreensão do assunto.

Cremos que está dito acima, com todas as letras que, na gestação, plasma-se novo corpo espiritual, ou perispírito, para o Espírito reencarnante, que perdeu o seu no restringimento, seja no caso de um selvagem ou de qualquer Espírito mais elevado, uma vez que esses são processos naturais aos quais estamos todos submetidos e que o corpo espiritual, depois do berço, continuará a evoluir e que persistirá depois do túmulo.

Sem dúvida que há, pois, a gestação do corpo espiritual e a gestação do corpo físico, ao mesmo tempo, no processo de renascimento na Terra.

Esta constatação acrescenta alguma coisa para a melhoria da criatura? Pensamos que sim, porque nos torna mais responsáveis diante do fenômeno da vida, e mesmo da morte, e nos esclarece melhor a lei do renascimento à qual estamos todos sujeitos por força de necessidade evolutiva, ao mesmo tempo que nos ensina a respeitarmos mais o processo de gestação como coisa duplamente divina.

Além disso, aceitas todas essas premissas, podemos concluir que, ao mesmo tempo, vivemos em três planos de vida: pelo nosso corpo físico participamos do mundo carnal, ou físico; pelo nosso perispírito participamos do mundo dito espiritual, que é a próxima dimensão que nos rodeia especialmente nos desprendimentos como no sono natural ou provocado, e finalmente, pelo nosso corpo mental participamos da vida universal, além dos limites estreitos em que nos movemos.

Não é que isto seja uma didática apropriada para nos compreendermos em nossa tríade, mas que isto é a pura realidade, uma vez que um corpo mental preside a formação de um corpo espiritual que, por sua vez, preside a formação de um corpo físico, ao mesmo tempo e na intimidade orgânica de um corpo de mulher, transformada em mãe com a responsabilidade divina de criação.

Que Deus abençoe a todas as mulheres chamadas à maternidade para que a exerçam com o maior amor, como verdadeiras cooperadoras do Criador, e afaste delas a idéia de desertar da sagrada missão uma vez estabelecida, pelas portas do aborto criminoso, sabendo agora que são responsáveis pela gestação de dois corpos ao mesmo tempo, e que o filho rejeitado, se não souber perdoar, estará dentro dela mesma, com direito a permanência, para cobrá-la do crime praticado contra ele, sem prejuízo do que terá de responder, perante a Justiça Divina, pela infringência a tão sagrada lei da vida.


(1) Francisco Cândido Xavier – André Luiz, 24 edição, FEB, cap. 13.
(2) Francisco Cândido Xavier – Waldo Vieira – André Luiz, 12 edição, FEB, 1 Parte, cap. 19.
(3) Francisco Cândido Xavier – André Luiz – Lucius e Heigorina Cunha, edição IDE.
(4) Heigorina Cunha – Lucius, edição IDE.
(5) Francisco Cândido Xavier – André Luiz, 14 edição, FEB.
(6) Francisco Cândido Xavier – Waldo Vieira – André Luiz, 12 edição, FEB.
(7) Francisco Cândido Xavier – André Luiz, 24 edição, FEB.
(8) Francisco Cândido Xavier – Elias Barbosa – Espíritos Diversos, edição IDE.
(9) Francisco Cândido Xavier – André Luiz, 18 edição, FEB.
(10) Francisco Cândido Xavier – André Luiz, 15 edição, FEB, cap. 15.
(11) Francisco Cândido Xavier – André Luiz, 12 edição, FEB, cap. 13.


Matéria extraída da Revista Espírita ano I janeiro e fevereiro de 1995 n 1 e 2, escrita por Salvador Gentile, IDE.
Link da Página: http://www.editoraideal.com.br/ler_materia.php?id=99
(Publicado em 30/03/2010)
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